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O euro caiu face ao real: esperar que recupere compensa?

A queda de 5 de outubro foi a maior desde 2020. Fiz a pergunta que muita gente que envia dinheiro para o Brasil faz nestes dias: espero que o euro recupere ou envio já? Para responder, fui ver o que aconteceu depois de todas as grandes quedas desde 2000.

Fonte dos dados: taxas de referência EUR/BRL do Banco Central Europeu (via Frankfurter API), de 13/01/2000 a 09/10/2026, consultadas a 12/10/2026.

Envio dinheiro para o Brasil todos os meses desde 2018. Em outubro, o envio foi a 1 de outubro, quatro dias antes da queda. À taxa de referência do BCE, 90,90 € valiam 532,86 reais nesse dia. A 5 de outubro, os mesmos 90,90 € valiam 507,67, menos 25 reais. Num envio de 1.000 €, a diferença seria de 277 reais.

Quando o euro cai assim, a tentação é esperar que volte ao nível de antes. Mas esperar só compensa se ele voltar mesmo, e se voltar a tempo. Fui ver quantas vezes isso aconteceu.

Quão rara foi a queda de 5 de outubro

Na sexta-feira, 2 de outubro, o BCE fixou o EUR/BRL em 5,8610. Na segunda-feira, 5 de outubro, fixou-o em 5,5849: uma queda de 4,7% num só dia útil.

Para pôr isto em perspetiva, olhei para as 6.842 variações diárias da série do BCE desde 2000:

  • Num dia típico, o EUR/BRL mexe cerca de 0,55%, para cima ou para baixo (é a mediana).
  • Só 117 dias em quase 27 anos tiveram uma variação de 3% ou mais, para qualquer dos lados. É menos de 2% dos dias.
  • A queda de 5 de outubro é a 15.ª maior queda diária desde 2000, e a maior desde 9 de novembro de 2020.

Há ainda um pormenor que a torna mais surpreendente: 2026 estava a ser o ano mais calmo de toda a série. A variação diária típica deste ano, medida pelo desvio padrão, é de 0,58%. Em 2002 e em 2008 foi de cerca de 1,9%. Desde 2022, só houve quatro dias com movimentos de 3% ou mais, e este foi o maior deles.

As maiores quedas desde 2000, e o mês seguinte

Estas são as dez maiores quedas diárias do EUR/BRL, contando cada episódio uma só vez. Para cada uma, mostro onde estava a taxa um mês depois, comparada com o dia da queda, e se voltou ao nível da véspera nos três meses seguintes.

Dia da quedaQuedaUm mês depoisVoltou ao nível da véspera em 3 meses?
2 de agosto de 2002−9,3%−3,5%Sim
9 de outubro de 2008−8,4%−9,0%Sim
25 de setembro de 2015−8,3%−2,1%Não
24 de outubro de 2008−7,6%+1,0%Sim
6 de janeiro de 2009−6,6%+0,3%Não
13 de março de 2020−5,5%+9,7%Sim
9 de novembro de 2020−5,5%−0,9%Sim
25 de setembro de 2001−5,1%−1,1%Não
1 de outubro de 2002−5,0%−0,2%Não
5 de outubro de 2026−4,7%ainda não se sabeainda não se sabe

"Um mês depois" compara a taxa 21 dias úteis depois com a do próprio dia da queda. Um valor negativo quer dizer que, um mês depois, o euro valia ainda menos reais.

Duas coisas saltam à vista. A primeira é que as grandes quedas se concentram em poucos períodos de crise: 2001–2002, o outono de 2008, 2015 (o ano em que o Brasil perdeu o grau de investimento) e 2020, o ano da pandemia. A segunda é que o mês seguinte não segue nenhum padrão. Depois de 13 de março de 2020, o euro recuperou quase 10% num mês. Depois de 9 de outubro de 2008, caiu mais 9%.

Esperar que recupere: quantas vezes resultou

Dez casos são poucos para tirar conclusões, por isso alarguei a conta a todas as quedas de 3% ou mais num dia, contando cada episódio uma só vez. Com pelo menos três meses de dados depois, são 29 episódios entre 2001 e 2024.

Depois de uma queda de 3% ou maisEpisódios
A taxa voltou ao nível da véspera no mês seguinte9 em 29 (31%)
A taxa voltou ao nível da véspera nos três meses seguintes16 em 29 (55%)
Um mês depois, a taxa estava ainda mais baixa do que no dia da queda15 em 29 (52%)

Ou seja, quem esperou que o euro voltasse ao nível de antes acertou em menos de um terço dos casos no primeiro mês. E em metade dos casos, quem esperou um mês acabou por enviar a uma taxa ainda pior do que a do dia da queda.

Nas quedas maiores, de 4% ou mais, o retrato é parecido: só 3 em 13 recuperaram o nível da véspera no mês seguinte, e 7 em 13 nos três meses seguintes.

Um aviso honesto sobre estes números: os 29 episódios não são 29 experiências independentes. Muitos acontecem no mesmo período de crise, com poucas semanas de intervalo, e a crise que os provocou é que decide o que vem a seguir. O que os dados mostram com segurança não é uma regra para prever, é a ausência dela. Depois de uma grande queda, recuperar e continuar a cair foram, na prática, igualmente prováveis.

E quando é o euro que dispara?

O contrário também acontece: dias em que o euro sobe de repente e o mesmo envio rende muito mais reais. Desde 2000, houve 73 dias com subidas de 3% ou mais.

Aqui há um padrão um pouco mais claro, mas de curto prazo. Uma semana depois de uma subida de 3% ou mais, a taxa tinha descido em 63% dos casos, com uma descida mediana de 1,6%. As maiores subidas aparecem, aliás, coladas às maiores quedas. A 8 de outubro de 2008, o EUR/BRL subiu 12,9%, e no dia seguinte caiu 8,4%. A 24 de setembro de 2015, subiu 5,6%, e a 25 caiu 8,3%.

Para quem envia dinheiro, a lição é a mesma ao contrário: um salto do euro é muitas vezes passageiro. Se tens um envio para fazer e o euro dá um salto, não há nada nos dados que diga que vale a pena esperar por um salto ainda maior.

O que isto muda na prática

  • Envios regulares: uma queda grande não é, por si só, razão para adiar. Esperar pelo nível de antes resultou em menos de um terço dos casos no mês seguinte, e quem precisa do dinheiro do outro lado não costuma poder esperar três meses. O guia sobre o melhor dia para enviar mostra que, a longo prazo, um dia fixo do mês não te prejudica.
  • Um envio grande e sem pressa: dividir o valor em duas ou três partes, ao longo de algumas semanas, continua a ser a forma mais simples de não apostar tudo num só dia. Não apanhas a recuperação toda, se ela vier, mas também não apanhas só a queda.
  • O que controlas: a taxa do dia não está nas tuas mãos, mas o custo do serviço está. No meu envio de 1 de outubro, o custo total foi de 1,46%, quase todo na comissão. Comparar o que chega, líquido, vale todos os meses, e não só em semanas de queda.

Para mim, estes números confirmam o que já tinha concluído com o guia do melhor dia. Deixei de esperar pelo euro alto, e uma queda como a de 5 de outubro não me faz mudar de ideias. Continuo a enviar no início do mês e, quando o valor é maior, divido-o em vários envios.

Como fiz as contas

  • Dados: taxas de referência diárias EUR/BRL do Banco Central Europeu, de 13 de janeiro de 2000 a 9 de outubro de 2026, obtidas através da Frankfurter API (ver metodologia). As taxas do BCE são publicadas uma vez por dia útil e não incluem spread nem comissões.
  • Variação diária: taxa de um dia ÷ taxa do dia útil anterior − 1. Um fim de semana conta como um só passo, por isso a queda de 5 de outubro compara segunda-feira com sexta-feira.
  • Episódios: quando há vários dias de queda forte seguidos, conta só o maior, num intervalo de 10 dias úteis. Sem isto, a mesma crise apareceria várias vezes na tabela. Nas subidas, contei todos os dias com subida de 3% ou mais, e "uma semana" são 5 dias úteis.
  • "Um mês" e "três meses": 21 e 63 dias úteis com taxa publicada. Ficam de fora as quedas sem três meses de dados depois, como a de 5 de outubro de 2026.
  • "Voltou ao nível da véspera": houve pelo menos um dia, no período indicado, com uma taxa igual ou superior à do dia útil anterior à queda.
  • Dados anómalos: a série do BCE tem um valor isolado de 2,0141 a 11/02/2000, entre 1,7501 e 1,7509 nos dias vizinhos. Esse dia ficou de fora das contas.

Este artigo é informativo e não constitui aconselhamento financeiro. Desempenho passado da taxa de câmbio não garante comportamento futuro.

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